terça-feira, 22 de maio de 2012

Um pouco de Séneca - Alberto Siufi

"Rir é correr o risco de parecer tolo.
Chorar é correr o risco de parecer sentimental.
Estender a mão é correr o risco de se envolver.
Expor seus sentimentos é correr o risco de mostrar seu verdadeiro eu.
Defender seus sonhos e idéias diante da multidão é correr o risco de perder as pessoas.
Amar é correr o risco de não ser correspondido.
Viver é correr o risco de morrer.
Confiar é correr o risco de se decepcionar.
Tentar é correr o risco de fracassar.
Mas devemos correr os riscos, porque o maior perigo é não arriscar nada.
Há pessoas que não correm nenhum risco, não fazem nada, não têm nada e não são nada.
Elas podem até evitar sofrimentos e desilusões, mas não conseguem nada, não sentem nada, não mudam, não crescem, não amam, não vivem.
Acorrentadas por suas atitudes, elas viram escravas, privam-se de sua liberdade.
Somente a pessoa que corre riscos é livre!"

Séneca

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Rio + 20: é hora de assumir compromissos!–Ricardo Rose

Às vésperas da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a RIO + 20, ainda pairam muitas dúvidas sobre o que será debatido no evento e os resultados do encontro para o futuro. Falta um consenso sobre os temas a serem discutidos e negociados entre os participantes. Se, por um lado, o enfoque principal é sobre a economia verde – o uso eficiente de recursos –, as discussões também deverão incluir o debate sobre a questão social. Nesse aspecto parece estar havendo uma queda de braços entre grupos representados principalmente pelos países ricos, favoráveis a limitar as discussões apenas às questões do uso dos recursos, e entre outra corrente, lideradas pelo Brasil, que pretende incluir o tema social nas discussões.

Além deste antagonismo entre as duas visões da economia verde, ainda existem outros fatores influenciando todo o ambiente que precede a RIO + 20. A economia mundial está sendo afetada por problemas financeiros globais que tiveram sua origem na crise dos subprimes americanos em 2008, atingindo especialmente a economia americana e européia, que parecem despencar para uma recessão que levará anos para passar. Nesta situação será difícil fazer com que os países dêem grande importância a um evento que pretende implantar uma economia mais eficiente e menos poluidora, o que implica em investimentos adicionais em tecnologias – coisa que estes países não pretendem fazer pelo menos por enquanto. Antes de pensar em gastos, mesmo que para reduzir os impactos ambientais, a prioridade é sair da crise.

Do lado dos países pobres a situação ainda é mais premente. Segundo o economista Ladislau Dowbor, existe um bilhão de pessoas passando fome no mundo, das quais 180 milhões são crianças. A cada dia morrem cerca de 30 mil pessoas de inanição, ou por problemas causados pela falta de água limpa para consumo. Falta de tratamento de esgoto, contaminação das águas de rios e do lençol freático por resíduos industriais e agrotóxicos, são mais problemas que afetam outras centenas de milhões de pessoas na China, Índia, Paquistão e Brasil, entre outros países em desenvolvimento.

Não há, contudo, como evitar as discussões e chegar a um denominador comum entre os países. Porque se de um lado há uma grave crise econômica afetando sociedades com relativo bem estar, de outro lado os países pobres e em desenvolvimento – supridores de matérias primas e de mão de obra barata – continuam enfrentando as mesmas dificuldades pelas quais passam há décadas. Não é possível que devido a uma crise econômica passageira, provocada essencialmente pela especulação financeira que beneficiou pessoas e empresas dos países ricos, as discussões a serem realizadas na RIO + 20 sejam prejudicadas. Não há mais tempo para que os países mais ricos – incluindo aí o Brasil – se esquivem de assumir compromissos na área ambiental e social.

O Brasil, aliás, tem a pretensão de assumir uma posição de liderança durante os debates que deverão ocorrer. Para isso, no entanto, deveria ser capaz de dar mostras de êxitos alcançados. A pergunta que fica é se depois da votação do Código Florestal, da baixa taxa de saneamento básico, da matança dos botos na Amazônia, do consumo exagerado de agrotóxicos, entre outros fatos, o Brasil ainda tem condições de se tornar exemplo para o mundo, como pretendem alguns.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Cidades, onde a vida acontece–Ricardo Rose

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O desenvolvimento de um país se dá nos municípios, nas cidades. No âmbito municipal o cidadão tem acesso – ou pelo menos deveria ter, já que a Constituição garante o direito – à educação, saúde, transporte público, cultura, lazer, entre os principais benefícios. Estes serviços, que as prefeituras são obrigadas a oferecer a todo e qualquer cidadão brasileiro, são custeados por recursos municipais ou, na falta destes, por verbas estaduais ou federais. O que não pode acontecer é que verbas do caixa municipal, ou recebidas através de repasses estaduais, sejam utilizadas pelo prefeito para investir em obras desnecessárias ou manter uma máquina administrativa sobrecarregada, com excesso de funcionários ou altos salários. Por isso a importância da Lei de Responsabilidade Fiscal, oficialmente Lei Complementar no. 101, que impõe um justificado controle das despesas de estados e municípios, condicionando os gastos à capacidade de arrecadação de tributos.

A Lei de Responsabilidade Fiscal foi criada no governo de Fernando Henrique Cardoso e representou uma vitória do bom senso e da justiça na administração pública. A partir da aprovação deste marco legal foram introduzidos diversos mecanismos de controle do executivo municipal, estadual e até federal, que podem proporcionar uma aplicação mais democrática das verbas públicas. Estes recursos, parece óbvio dizer, não são públicos porque são geridos pelo setor público. São públicos porque pertencem a todos nós, o povo. Foram gerados por nós, pelos nossos impostos, e devem ser investidos em nosso benefício. Toda vez que um administrador está utilizando dinheiro público de maneira indevida – em casos extremos até se apossando destes recursos – ele está cometendo um crime contra o país. Em alguns lugares, criminosos deste tipo são trancafiados por longos anos e condenados a devolver tudo que subtraíram – quando não acontece coisa pior, como na China.

A Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN) realizou recentemente uma pesquisa, mostrando a situação financeira das 5.266 cidades brasileiras. O resultado demonstra que apesar de um lento progresso – resultado principalmente da Lei de Responsabilidade Fiscal – ainda duas em cada três cidades brasileiras (63,5%) vivem em situação financeira difícil ou crítica. A pesquisa levou em consideração cinco critérios principais: a) a capacidade de arrecadação do município; b) os gastos com pessoal; c) capacidade de fazer investimentos; d) o custo da dívida do município em longo prazo e) a liquidez. A pesquisa constatou que gastos com pessoal – funcionários públicos diretos e indiretos – e a baixa arrecadação dos municípios, ainda são os maiores problemas. No cômputo geral, as cidades brasileiras se dividem da seguinte maneira: 94 (1,8%) estão com um conceito excelente em gestão; 1.822 (34,8%) têm gestão classificada como boa; 2.302 (43,7%) estão enfrentando dificuldades; e 1.048 (19,9%) têm nível de gestão crítico.

Os cidadãos de cada cidade brasileira sabem ou deveriam saber como o prefeito está gerenciando seu município. A promessa de asfalto, esgoto, da creche, e da nova escola profissionalizante são pendências que devem ser cobradas. A chegada das eleições municipais é nova oportunidade de se informar sobre o que está acontecendo no município e tentar melhorar a própria vida através do voto consciente.

domingo, 18 de março de 2012

Os índios e nós, os selvagens!–Ricardo Rose

Yamiaura, de Elon Brasil, 2002.

No Brasil existe uma longa tradição de tirar vantagens dos índios. Quando os portugueses por aqui chegaram, a população indígena, segundo alguns cálculos, deveria ser de cinco milhões de pessoas. No entanto a escravidão, as doenças contra as quais os índios não tinham anticorpos (gripes, varíola, etc.), e o sistemático assassinato de tribos que se opunham à dominação européia, acabou reduzindo esta população.

Durante todo o período colonial e imperial principalmente, foram grandes as barbaridades praticadas contra a população indígena, sempre com o objetivo de se apoderar de seu território.

Muitos latifúndios ainda hoje existentes ou outros que deram origem a grandes fortunas foram construídos com o sangue e a vida de milhares de indígenas. As memórias destas atrocidades estão esquecidas, enterradas com suas vítimas. A história acabou sendo escrita para e por aqueles que venceram. Diga-se, a bem da verdade, no entanto, que este tipo de tratamento dos povos indígenas não é absolutamente exclusividade da sociedade brasileira; do Canadá à Argentina estes povos foram exterminados para dar lugar ao branco agricultor, pecuarista, garimpeiro e colonizador.

Na década de 1960 e 1970 a expansão da fronteira agrícola, a exploração de minerais e a construção de estradas contribuíram para diminuir mais ainda a população silvícola, que no início da década de 1980 havia caído para apenas 280 mil indivíduos. Com a introdução, em passado recente, de políticas de proteção ao índio e da criação de reservas por todo o país – com maior concentração da região Norte – o número de nascimentos aumentou e a população indígena vem lentamente se recuperando; atualmente em torno dos 370 mil indivíduos.

Todavia, a situação dos povos indígenas ainda está longe de ser fácil. Limitados a suas reservas, as tribos indígenas são constantemente alvos de curiosos, missionários e todo tipo de intrusos, que tentam tirar algum proveito destes povos. As florestas de suas reservas continuam sendo exploradas por madeireiras, os solos destruídos por garimpeiros e muitas áreas ainda são incorporadas por fazendeiros. Fontes de água situadas foras dos limites das reservas são poluídas por excesso de agrotóxicos, utilizados nas plantações do entorno. A pesca torna-se cada vez mais reduzida, já que o nível da água dos rios ficou mais baixo com o assoreamento, causado pela erosão devida ao desmatamento. A grande variedade de espécies de peixes vai desaparecendo junto com a destruição dos ecossistemas aquáticos pelos agrotóxicos, carregados pela chuva, das plantações para os rios.

Com orçamento limitado, a Fundação Nacional do Índio (FUNAI) e Ongs como o Conselho Indigenista Missionário (CIMI) e o Instituto Sociambiental (ISA), entre outros, procuram apoiar e orientar os povos indígenas em sua luta pela sobrevivência. Mesmo assim, muitas tribos sofrem com a falta de território (a área de sobrevivência de que dispõem não é suficiente para plantar, caçar e pescar); não dispõem de assistência médica regular, principalmente para as crianças; e estão perdendo sua cultura: ocorrem vários suicídios entre jovens índios, por causa da perda dos seus valores ancestrais.

Enquanto culturas indígenas que levaram milhares de anos para se formar desaparecem definitivamente, ficamos nós preocupados com a próxima reunião do Copom. E ainda nos consideramos civilizados!

sexta-feira, 9 de março de 2012

Impasses do Código Florestal–Ricardo Rose

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Depois das alterações no Código Florestal apresentadas pelo senado, o projeto deve voltar para votação na câmara dos deputados. O relator do projeto, deputado Paulo Piau (PMDB-MG), já declarou que vai acatar quase integralmente a versão desenvolvida pelo senado. Ainda permanecem como principais pontos polêmicos a questão das áreas de proteção permanente (APPs) nas margens dos rios e a recomposição dos desmatamentos destas áreas, ocorridos até julho de 2008.

A discussão parece ter chegado a um impasse entre grupos preservacionistas - ambientalistas, cientistas, segmentos da sociedade civil – e representantes da bancada ruralista e seus aliados. Apoiando a manutenção das áreas das APPs de acordo com o Código Florestal original e insistindo na recomposição das áreas desflorestadas, está a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciência (ABC). Juntas, as entidades lançaram o documento “O Código Floresta e a ciência – contribuições para um diálogo”. O estudo apresenta uma série de sugestões e traz subsídios para aprofundar o debate sobre a alteração do Código, tendo sido entregue a deputados e senadores, para que se preparassem para as discussões.

A preocupação dos cientistas é grande. Pesquisadores do programa Biota-Fapesp, por exemplo, afirmam que o país estaria “arriscado a sofrer seu mais grave retrocesso ambiental em meio século, com conseqüências críticas irreversíveis que irão além das fronteiras nacionais”, segundo a revista Scientific American Brasil de junho de 2011. Caso aprovadas as alterações sugeridas na nova redação do código, não haverá obrigatoriedade da recomposição de área desflorestada ilegalmente desde 1965 – ocorreria uma anistia que, como sempre, beneficiaria os infratores. Esta redução da área de vegetação original, segundo os cientistas, tem como conseqüência o aumento das emissões de dióxido de carbono e a redução do habitat para espécies nativas vegetais e animais. Com isso, estima-se uma perda de até 100 mil espécies, que desaparecerão para sempre; muitas delas desconhecidas pelo homem.

Outra crítica da SBPC e da ABC ao processo de alteração da lei florestal é que as instituições nunca foram consultadas ou chamadas para participarem das discussões. Foi só durante os debates mais recentes que suas opiniões foram, às vezes, levadas em consideração. Com a ausência dos cientistas, pode ter faltado fundamentação científica às discussões, que assim se tornaram mais ideológicas do que científicas, fazendo com que acabassem prevalecendo os interesses de grupos com mais força política. A história nos ensina que é perigoso prescindir da palavra da ciência em discussões tão importantes e nas quais as ciências – biologia, geografia, geologia, meteorologia, agronomia, e tantas outras – têm tanto a dizer.

A discussão e votação final do Código Florestal serão provavelmente postergadas para depois da Conferência da ONU sobre Desenvolvimento Sustentável, a RIO + 20, que ocorrerá em final de junho deste ano. Com o recesso parlamentar, os debates deverão ser retomados somente em agosto, evitando assim aprovar às vésperas do evento um Código Florestal que colocaria em cheque muito daquilo que o Brasil pretende defender nesta importante conferência.

sexta-feira, 2 de março de 2012

Espécies desaparecem, e nós?–Ricardo Rose

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Nas últimas semanas chamou atenção uma pesquisa realizada pela universidade de Plymouth, da Inglaterra, mostrando que os oceanos estão ficando cada vez mais ácidos. A acidez gradual das águas marinhas ocorre, segundo os cientistas, devido a quantidades cada vez maiores de dióxido de carbono (CO²) contidas na atmosfera, que se diluem nos mares. Este gás, encontrado em quantidades reduzidas na atmosfera, é em grande parcela resultante da queima de combustíveis pelo setor industrial, de transportes e da geração de energia (principalmente nos países do Norte). A previsão é que esta gradual acidificação das águas poderá causar uma mortandade de até 30% das espécies marinhas. O processo, evidentemente, não ocorrerá em alguns anos, mas aos poucos, ao longo de um ou dois séculos. O cientista britânico Jason Hall-Spencer, autor da pesquisa, comenta que no passado geológico o planeta passou por processo parecido. Há 55 milhões de anos os oceanos terrestres sofreram acidificação semelhante, mudança que levou 10 mil anos para atingir seu ponto máximo. Depois disso, o grande ecossistema da Terra reverteu a alta concentração de CO² nas águas, precisando para isso outros 125 mil anos.

Outro fato que despertou a atenção foi a reportagem do jornal O Estado de São Paulo, reportando que a pesca de peixe no litoral do estado está caindo a cada ano. Segundo pescadores artesanais da região de Camburí, litoral norte de São Paulo, a quantidade de peixe capturada vem caindo há pelo menos uma década. A percepção dos pescadores é confirmada pelos dados oficiais: segundo o Instituto de Pesca de São Paulo, o volume de pescado capturado no Estado em 2011 foi de 20,5 mil toneladas; 20% a menos que há dez anos e 60% a menos que há 20 anos. A culpa, segundo os pescadores, é dos grandes barcos que operam em águas mais profundas, com compridas redes e radares com capacidade de localizar os cardumes a grandes distâncias. Com isso assiste-se ao colapso de diversos tipos de pescado. A sardinha-verdadeira (sardinella brasiliensis), por exemplo, já foi um dos principais produtos da pesca nas regiões Sul e Sudeste. Na década de 1970 a produção anual deste peixe era de mais de 200 mil toneladas, caindo para 32 mil na década de 1990 e chegando a 17 mil toneladas anuais em 2000. Depois da instituição do período de defeso, quando o peixe está em fase de reprodução e sua pesca é proibida por lei, a produção subiu e estacionou em torno das 80 mil toneladas anuais.

Os dois fatos muito pouco tem a ver um com o outro, pelo menos até agora. No entanto, são dois indícios de como, através de nossas atividades produtivas, estamos reduzindo e gradualmente destruindo o estoque de recursos naturais. Por um lado, a crescente acidificação das águas destruirá a população dos corais, que funcionam como habitat e local de alimentação e procriação para muitas espécies marinhas: peixes, crustáceos, tartarugas e moluscos. Por outro lado, a pesca intensiva, destruindo indivíduos menores as fêmeas em fase de reprodução, reduzirá cada vez mais as possibilidades de sobrevivência das espécies destes peixes.

Ao final, resta a pergunta sobre que tipo de futuro antevemos para a humanidade, já que a Terra cuida de si mesma, não precisa de nossa intervenção. Ferida, se recupera; espécies vivas vêm e vão e no final a vida permanece; com ou sem nós.

domingo, 12 de fevereiro de 2012

Progresso pra quem? - Ricardo Rose


Todo progresso tem um custo, frase que lemos e escutamos frequentemente. Esta afirmação quase sempre é de autoria daqueles que tiram proveito do tal progresso, e não dos que arcarão com o seu custo. O que parece implícito nesta afirmação é queprogressosempre significamelhoria para todos” – quando geralmente não é. Propaga-se a idéia de que fatos inevitáveisque criarão mudanças. Estas provocarão necessariamente uma melhoria: oprogresso; que, no entanto, custará um sacrifício. Cabe questionar o que é o progresso em determinado contexto, a quem beneficiará, e quem pagará por ele.


A história de todas as sociedades está cheia destas falácias. Principalmente, quando a idéia deprogressoaparece associada aos projetos de grupos dominantes, que sutilmente convencem o restante da sociedade de sua necessidade. A construção de usinas nucleares foi sinônima de progresso, em países que hoje planejam a substituição deste tipo de energia. A troca do bonde elétrico pelo ônibus a diesel também foi sinal de melhoria nos transportes públicos em São Paulo, assim como a derrubada da floresta na região amazônica também representou o avanço da civilização, do progresso, nos anos 1970. Ninguém, munido das informações de que dispomos atualmente, classificaria estes fatos como indício de progresso. Mas, como dissemos acima, a introdução destas tecnologiasoprogressoà épocaalém de ser algo novo, também atendia aos interesses de grupos de poder que se beneficiaram com a mudança tecnológica. A conta, como sempre, ficou a cargo da sociedade civile nesta os pobres são os que sempre pagam a maior parcela.


Fatos semelhantes estão ocorrendo neste momento, em vários pontos do Brasil. Os estádios da Copa 2014, a transposição do Rio São Francisco, e vários outros projetos; todos nos trarão progresso, dizem. Neste contexto a Folha de São Paulo publicou artigo sobre o desaparecimento de peixes no Rio Madeira, onde estão localizadas as hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, esta última ainda em construção. O rio Madeira é o 17º maior rio dentre todos os que existem no planeta Terra. Sua imensa diversidade biológica, no entanto, foi afetada com as obras de engenharia. Vários tipos de peixesdenominadas genericamente debagres” – geravam 29 mil toneladas de pescado por ano. Estas espécies desapareceram, segundo o relato de pescadores aos jornalistas do jornal, que visitaram a região. O fenômeno havia sido previsto por cientistas, antes do início das obras. O fato se deve principalmente à diminuição da correnteza no lago formado pela barragem, o que deixa o fundo sem oxigenação, impedindo a sobrevivência de determinadas espécies de peixes abundantes na região.


O jornalista Leão Serva, em artigo publicado sobre o assunto no blogObservador Político(http://www.observadorpolitico.org.br/observadores/leaoserva/), relata que outras obras do mesmo tipoalém das que estão em andamento no Rio Xingudeverão ser construídas na Amazônia durante os próximos anos, causando impactos semelhantes, previstos pelos cientistas desde 2006. Se este é o começo do custo que a população da região pagará pelo supostoprogresso, como será o futuro? Ecossistemas degradados, desaparecimento de espécies, problemas sociais... Diziam os romanos: cui bono, quem se beneficia?

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ENCONTRO DE AMIGOS FILOSOFOS NA “FEIJOADA FILOSOFICA” SABATISTA DA CLARETIANO - Zézinho Zanzini

(Um encontro criado e sacramentado pelos alunos de Filosofia da Universidade Claretiano na Cidade de São Paulo)


Por mais difícil que a vida é pintada, escrita e proclamada em suas dificuldades pessoais, independente dos modismos, dos entraves e dos avanços sociais que continuam fazendo do homem uma personificação social pessoal e particular, levando a cada hora, dia e tempo infinito a caminharem para seus objetivos e sonhos sem a parceria coletiva e sem a força de parceiros que caminham juntos ou caminharam em seus desafios, acabamos deixando de lado a tradição cooperativista que atravessou gerações, na busca do sucesso e do bem estar.

Porem, quando vemos e sentimos que o materialismo, a ganância, o individualismo impera nos centros sociais modernos, surge isolada uma célula de amigos filósofos, que deixaram o titulo de “Café Filosófico” e resolveram no ano de 2007 dentro da universidade que estudaram, criar a “Feijoada Filosófica”, menos formal, com a “caipirinha”, mais discursiva, mas não menos elegante e charmosa, pelo nível de homens que fazem dessa mesa a combinação do passado, do presente e de um futuro muito metafísico na alegoria moderna, dentro da entrega da teologia de Santo Agostinho.

Na comunicação via e-mail do Professor e Filosofo Ricardo Rose, abre-se o leque do convite no dia e no sábado da reunião, e tudo vira uma antecipação palestriva antes dos palestrantes chegarem, com a idéia chegando ao Prof. Alberto ( nosso “Deus” supremo ), Prof. Betinho, Prof. Betão, Prof. Julio, Prof. Tadeu, Prof. Luis Eduardo, Profa. Walkiria, Prof. Wagner, Palestrante e Seminarista Elcio, e por fim o Prof. Zezinho Zanzini.


Tudo como alunos que aguardam o professor entrar na sala de aula, as discussões acaloradas no estilo política, foram acontecendo até o momento derradeiro do encontro. Muitos sorrisos, abraços e beijos, até porque “Deus” na forma humana do Prof. Alberto estava presente, num titulo recebido em uma dessas nossas feijoadas em 2008, motivo mais que suficiente para que o Prof. Ricardo traçasse uma paralela de atitudes teológicas e acontecimentos com o Cristo em relação à presença do Prof. Alberto, gerando gargalhadas e sorrisos entre os filósofos sempre muito acéticos a verdade religiosa.

E assim chegaram os amigos filósofos e parceiros das mesas da “Feijoada Filosófica” de tantas já acontecidas e essa não seria diferente, formada pelo Prof. Ricardo, Elcio, Zezinho, Betão (Deus), Julinho, Eduardo e Betinho. Nem bem sentávamos a mesa, as reflexões em torno da filosofia se faziam presentes e como sempre acontece em todas as reuniões da “FF”, os encontros de pensamentos vão tendo consistência, e descubro em minhas palavras a preocupação da maldade da alma Platonista que consiste no “não-ser”, uma criação de algo do bem, ou seja, uma criação de um ser perfeito, faltando à perfeição, sem desvios de vontades, descoberta pela fé dos filósofos teológicos, enxergando Jesus.

Diferentemente de nossa época em comparações com o homem extraordinário de hoje que faz de sua vida um exemplo para valorizar num grupo pequeno as coisas que terão registros eternos, dissipando duvidas, abusando do conhecimento, buscando na sua inteligência aquilo que esta arquivado para que possa ultrapassar o materialismo e a vontade apenas do fazer , proporcionando um ambiente de experimentação da “FF”, de expressão cultural, filosófica, social e de empreendedorismo em um ambiente agradável, tranqüilo, atraente e organizado por seres que buscam os questionamentos.

Não poderíamos ver, ouvir e sentir o esforço das teorias mecanicista e teorias da complexidade que cada um de nós procura se esforçar para darmos a nossa humilde contribuição. Isso me fez lembrar-se de quanto o Prof. Betinho, pela primeira vez em 2007, ainda calouro de Filosofia na Universidade e fumando que nem gente grande questionou o relógio do tempo.

Aquela coisa derivada de René Descartes que trouxe a visão de que o cosmo poderia ser entendido como um relógio. A natureza seria uma máquina, onde bastaria desmontar as peças e entendê-las para compreender o todo, uma vez que não damos conta do tempo e de como o tempo acontece com tanta rapidez. Então o Prof. Eduardo, questionou, porque não seria algo voltado a física quântica?

Enfim o que vemos hoje, é que encima do pensamento daquela feijoada filosófica e daquele ano, o sistema educativo ainda vivencia essa prática muito cartesiana, fragmentada na realidade, simplificando o complexo, separando o que é inseparável, ignorando a multiplicidade e a realidade daquilo que vemos, mas que não aceitamos como filósofos. Questionamos essa visão de mundo mecanicista. Acreditamos com nossas duvidas, que uma teoria da complexidade sempre ira no sentido oposto, investigando a relação de cada parte dentro dessa totalidade e a influência dessa totalidade em cada parte, dando ênfase às interações existentes entre elas, mas não podendo deixar para trás, que anos já se foram e nem nos demos conta desse espaço e desse tempo tão rápido, acontecido na vida de todos.

Vivemos a partir de nossos graus conseguidos, o próprio holismo. Enfatizando a preservação da vida e de conhecimentos adquiridos a partir do estudo de problemas e não da intervenção, como na visão mecanicista que citei acima. Sabemos que o pensamento holístico defende uma visão de mundo interligado e interdependente, sair da percepção individualista para uma percepção coletivista da vida, levando em conta a complexidade da nossa sociedade, nos faz buscar uma percepção mais que local e prazerosa, nos remete a um universo infinito de discussões e oportunidades, que coloca pessoas tão próximas em pensamentos que as cabeças se tornam apenas uma.

Em tudo, que poderemos sempre ver, é a diferença notável da dúvida metodológica que levada ainda mais longe por cada um nessa mesa questionativa da “FF”, inclui uma hipótese desse mundo de demônios, malignos e onipotentes a criar o terror e fazendo o bem. Onde nos colocamos nesses conceitos? Se acreditarmos que poderíamos fazer com que todas as coisas que alguém pensasse existir fossem apenas ilusões!

Então chegamos ao foco principal de todas as nossas duvidas e de todos os nossos questionamentos que serão para sempre infindáveis, uma vez que podemos duvidar da natureza do espírito humano, de Deus e da metafísica, de que Ele existe; da verdade e do erro, da essência das coisas materiais, da existência das coisas materiais e da verdadeira distinção entre alma, espírito e o corpo do homem a se desfazer sem que o mesmo sinta. Aprendemos nestes anos que muitos cientistas se opuseram a idéias como essa, defendidas por Descartes, inclusive o teólogo Arnauld, o filósofo inglês Hobbes e o matemático e filósofo francês Gassendi.

Quando Descarte tomou conhecimento, das criticas e não concordando, rascunhou respostas de certo modo irritadas e relutantemente respondendo a seus críticos de maneira severa. Então quando nos vemos em uma mesa, comendo o prato mais conhecido no Brasil, alimentando com prazer o corpo e ao mesmo tempo a alma, e sabendo que nossos assuntos um dia foram questionados até em tom irritativo por um Descarte, apenas podemos nos sentir felizes, por essa oportunidade única que acontece em nossas vidas, uma vez que a próxima oportunidade será diferente. “a mesma água, não passa no mesmo lugar duas vezes”.

Finalmente os conflitos pessoais, que também são fruto desta crise de percepção da humanidade e porque não dizer da filosofia, vão sendo debatidos e discutidos pelos sete personagens, que notam que embora tenham noção de como o mundo deveria ser, não conseguem implantar suas teorias em suas próprias vidas, motivos de nossas insatisfações. E isso nos remete às nossas próprias dificuldades, enquanto professores e educadores, de assimilar esses novos paradigmas que são sistêmicos, que afetam-nos de maneira geral, e dificulta colocá-los em prática, o que implica uma transformação total de nosso modo de ser e de agir.

Zezinho Zanzini busca integrar política com a visão de mundo proposta por Ricardo. Ele, por sua vez, apesar de discorrer de maneira espetacular como os sistemas se integram, não consegue manter uma relação saudável com a própria filosofia do Betinho e Betão (Deus) sempre com argumentos que geram mais opinião e conceitos filosóficos na assistência de Julinho e Elcio na parcimônia do Eduardo, sempre contencioso. Não procuramos ter idéias brilhantes, mas a que temos, queremos compartilhar! Somos como vozes que gritam no deserto, voltadas para um mundo real a tentar conviver com as adversidades presentes.

A vida sente a si mesma e é maior que teorias que a condensam em um relógio ou um sistema cujas partes se interligam, cujo objetivo é defender um modo de vida integrado filosoficamente, porém provido de essência, porque a vida não se resume a uma máquina e nem a uma rede de conexões, existe algo bem maior que é esse fruto da convivência humana, da vida em comum, a reunir amigos de vários pontos da imensa cidade, num restaurante num bairro, para almoçarem e discutirem filosofia, dentro de um ponto de mutação na força de vontade de querer ver algo diferente para não continuar sempre com os mesmos modelos. Mostrando quanto todos juntos ali naquela mesa, um momento cartesiano que existe em cada um de nós, travando uma batalha puramente de visão holística entre uma colherada de feijão preto com arroz e farofa, um dos vários pedaços de carne do porco e lingüiça, na talagada providencial, da eterna e satisfatória digestiva, união da cachaça, limão e açúcar, conhecida como: caipirinha brasileira, acompanhando a Feijoada Filosófica.


JOSÉ LUIZ ZANZINI ( Zezinho )

Professor de Filosofia e Sociólogo.

domingo, 29 de janeiro de 2012

Capoeira e a antropologia cultural de nosso país - Alberto Siufi

"A capoeira é Mandinga, é manha, é malícia,
é tudo o que a boca come"
Mestre Pastinha

Por mais que tenha procurado manifestações culturais tipicamente brasileiras acabei caindo na Capoeira. Morei no sul do Brasil e com os gaúchos aprendi o quanto é rica a nossa cultura num geral. Teria dezenas de exemplos de manifestações legítimas, mas ainda, no meu ver, a Capoeira é o maior exemplo antropológico do que um povo pode fazer para manter sua cultura, mesmo sendo reprimidos ao máximo.


A história da Capoeira se mistura com a história dos negros africanos que foram trazidos a força, como escravos, em um capítulo que não devemos nos orgulhar muito. Neste período o escravagismo era um negócio muito rentável para muitas nações.

Vale lembrar que pela primeira vez na história da humanidade a escravidão foi vista como um negócio lucrativo. Até então quando um povo dominava a outro, a população dominada se tornava, em parte, escrava da dominante. No caso dos negros africanos foi diferente. Eles foram capturados em suas terras e levados a outras nações como mercadoria mesmo.

Sem querer entrar no mérito de certo ou errado, cuja conclusão parece óbvia, pretendo antropológicamente analisar, sob a visão do negro, escravo em sua sociedade. Na senzala.

Toda forma de cultura ou manifestação era duramente banida. Com esta atitude, aos poucos, os negros foram atingidos em sua moral. A Capoeira, da mesma forma foi duramente banida. Conta à história que se passasse um limão pelas calças de um negro, ele era considerado capoeirista e punido, uma vez que, as calças dos capoeiristas continha a boca de sino que facilitava os movimentos.

Mas foi, num clima de brincadeira e dança que os escravos treinavam seus movimentos. A capoeira se distingue de todas as outras formas de arte marcial exatamente pela música. Estas “danças e músicas” camuflavam um treinamento de luta, e assim, com esta manifestação cultural, os negros reforçavam e elevavam sua moral. Desenvolvida para resistir aos seus opressores.

A Capoeira é uma expressão genuinamente nacional. É um elemento da cultura brasileira com um tempero africano.

Mesmo depois do fim da escravatura a Capoeira foi considerada subversiva e devido a repressão,
quase sumiu no Rio de Janeiro. De acordo com a Wikipédia, as “brincadeiras de negro” e os batuques eram estimulados por serem válvulas de escape e acentuarem as diferenças entre as diversas nações africanas e, em termos legais, era considerado perigoso.

Apesar de tudo, a Capoeira ganhou o mundo, e viveu graças a personalidade e a vontade de um povo reprimido, guerreiro, que nunca deixou de manifestar sua alegria. Nem em momentos como estes de escravidão.


A Capoeira no meu ver, caracteriza nossos costumes. O brasileiro sofre com bom humor, trabalha sorrindo e muitas vezes ri da própria desgraça. O brasileiro não desiste e sempre tem esperança de que tudo vai melhorar, e como um capoeirista, briga e luta, mas com um sorriso na boca,dançando e cantando.




Sou maloqueiro, corinthiano e sofredor. Graças a Deus.”
Grito de torcida

Ilustrações - Caribé

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

2012, os maias e o meio ambiente – Ricardo Rose

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Começa mais um ano e renovam-se as esperanças e expectativas em relação ao que os próximos 365 dias nos reservarão. Para algumas pessoas mais sugestionáveis, 2012 promete a mudança da ordem mundial, de acordo com as previsões do calendário Maia - que estranhamente só ficaram conhecidas do grande público nos últimos dois ou três anos. Para os economistas as previsões também não são as melhores: crise econômica na Europa, nos Estados Unidos, com reflexos nas economias dos países em desenvolvimento, incluindo o Brasil. Precavidos, o ministro do Planejamento Guido Mantega e a presidente Dilma já procuram acalmar os ânimos, prevendo continuidade do crescimento e confiança no mercado interno.

O crescimento da economia deverá ter continuidade, mas a que preço para o meio ambiente? Se por um lado é imperativo que a economia brasileira mantenha seu ritmo de atividade para garantir os milhões de empregos dos quais depende grande parcela da população, por outro ainda existem vários problemas ambientais que precisam ser resolvidos e outros que surgem em função do crescimento.

Comecemos pelos dois maiores problemas ambientais urbanos do Brasil: a questão do saneamento e a gestão dos resíduos domésticos. São pendências que acompanham o desenvolvimento da sociedade brasileira há muitas décadas e que se tornaram mais graves a partir dos anos 1960, quando houve um rápido aumento da população e o crescimento das grandes metrópoles, sem que o Estado alocasse recursos suficientes para o atendimento deste tipo de serviço.

A questão do saneamento, o tratamento de esgotos domésticos, apesar dos investimentos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento), ainda permanece sem solução na maior parte dos municípios brasileiros. Com isso, a falta de tratamento dos efluentes é hoje responsável pela poluição da maioria dos cursos de água no Brasil, comprometendo a qualidade de vida de milhões de cidadãos e destruindo ecossistemas.

No caso da gestão dos resíduos domésticos, estes eram geridos na medida dos recursos das municipalidades, sem que houvesse legislação responsabilizando os geradores. Em final de 2010 cria-se a Lei Nacional de Resíduos Sólidos, determinando as responsabilidades de geradores e gestores na correta destinação dos resíduos domésticos urbanos. A implantação do marco legal, no entanto, é lenta e depende do envolvimento de diversos agentes; fabricantes, comerciantes, consumidores, associações e prefeituras.

Outro aspecto do crescimento da economia é que além de precisar resolver a questão do saneamento e dos resíduos, o país também necessita de cada vez mais recursos para manter a economia em funcionamento. Água, energia, combustíveis, minérios e alimentos precisarão ser providenciados em quantidades cada vez maiores, o que acaba gerando impactos adicionais aos ecossistemas.

Como manter o crescimento da economia, proporcionando melhores condições de vida para a população e ao mesmo tempo implantar medidas que permitam a proteção do meio ambiente, otimizando o uso dos recursos naturais e reduzindo a poluição? Esta pergunta cada sociedade precisa responder à sua maneira. Algumas sociedades, como a civilização Maia, deram a resposta errada e desapareceram - apesar do poder de previsão de seu calendário.